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Crescendo

O cultivo do tabaco é devastador para o meio ambiente e constitui um prejuízo líquido para a maior parte dos pequenos agricultores que plantam tabaco. Pesquisas recentes da Indonésia sugerem que os agricultores que param de cultivar tabaco estão em situação consideravelmente melhor do que seus vizinho que ainda cultivam tabaco.

Todos os produtos do tabaco começam com uma simples folha. O cultivo da folha de tabaco, nativo das Américas, remonta a pelo menos oito milênios, e tabaco para fumar há dois séculos. No século XV, Colombo ajudou a construir o futuro da indústria do tabaco como o primeiro “importador” de tabaco para a Europa. Em algumas décadas, o tabaco se espalhou por todo o mundo, incluindo o seu cultivo para fins comerciais. A mecanização da fabricação de cigarros a partir dos anos na 1880 ajudou drasticamente o crescimento do mercado, aumentando a demanda por folhas de tabaco. [inset]

Embora o cultivo generalizado de tabaco tenha gerado muitos desafios – incluindo riscos para a saúde dos agricultores, deterioração e questões com o use de mão de obra infantil – o desafio mais premente para o sistema de saúde pública é como a indústria usa o cultivo de tabaco para minar as politicas de controle do tabaco, argumentando que o controle do tabaco destrói os meios de subsistência dos pequenos produtores. Esse falso argumento – muitas vezes perpetuado pelos setores econômicos e/ou de agronegócios – repercute amplamente, prejudicando os esforços de controle do tabaco em todo o mundo. Não é por coincidência que o cultivo do tabaco tenha se deslocado para alguns países com IDH mais baixos do mundo, onde os governos em geral são mais econômica e politicamente vulneráveis.


Pesquisas recentes entre os principais países produtores de tabaco mostram que, para a maioria dos pequenos agricultores, o cultivo não representa prosperidade. Muitos agricultores – incluindo muitos que têm contratos com oligopólios compradores das folhas de tabaco – gastam muito com insumos (por exemplo, fertilizantes, pesticidas, etc.), recebem um valor muito baixo pelas folhas após a colheita e dedicam centenas de horas a uma atividade econômica geralmente não lucrativa. Os custos de oportunidade do cultivo de tabaco são altos, e os agricultores ficam para trás em termos de desenvolvimento do capital humano e de oportunidades econômicas mais lucrativas.

Então, por que os agricultores cultivam tabaco? Muitos agricultores relatam se tratar de um mercado seguro, mesmo que os preços sejam regularmente baixos. Outros relatam ter dificuldade em obter crédito para outras atividades econômicas. Para alguns, é uma forma de gerar dinheiro em caixa em economias com pouca circulação de moeda para que possam pagar por suas necessidades, como educação e assistência médica. No entanto, pesquisas mostram consistentemente que muitos produtores de tabaco subestimam seus custos e superestimam seus lucros.

O artigo 17 da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco da OMS (CQCT/OMS) compele as Partes a promover meios alternativos viáveis ​​ de subsistência para os produtores de tabaco. Poucos governos estão fazendo esse esforço. Não há solução que seja uma panaceia para esta transição; alguns países tentaram pequenos programas para introduzir novas culturas, como por exemplo, bambu no Quênia (com resultados variados). Alguns agricultores deixam o cultivo mas acabam voltando para o tabaco, na esperança de preços mais elevados. Os exemplos mais bem sucedidos de mudança em grande escala são dependentes de competência e experiências existentes. Na Indonésia, ex-produtores de tabaco estão desenvolvendo antigas culturas não relacionadas com o tabaco, e estão ganhando mais dinheiro dessa maneira. Os governos podem ajudar investindo em cadeias de abastecimento e valores, buscando novos mercados para esses produtos que estão substituindo o tabaco (INSET4) e terminando seus investimentos no cultivo do tabaco. Além disso, os governos podem reinvestir decididamente em educação e no desenvolvimento de competências agrícolas e não agrícolas.

 



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